terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Do final das contas

Despeço-me de todas as rosas da vida. Quero desistir. Não há mais razão para lutar. Essa vitória me é inglória. Vão seguindo vocês, deixem-me ficar aqui pelo caminho, pois eu já muito andei, muito chorei e muito sorri. E bem sei que tudo isso me foi angústia. Por isso agora digo: sigam em frente, vão sem mim. Vou ficar à beira da estrada esperando minha outra face, aquela que vem sempre comigo, mas que sempre tem medo, e me segue de longe pelo caminho.

Do sentido de trabalhar

A vida é mais fácil de entender por metáforas.
No meu caso, a morte seria como comprar uma caixa de bombons durante uma viagem, tendo comido apenas alguns para ter certeza de como será bom comê-los quando chegar em casa, em momento oportuno. E então, quando chegar em casa perceber que esqueceu a caixa de bombons pelo caminho...
A gente começa a se questionar se valeu a pena ter trabalhado e comprado a caixa tendo comido apenas alguns poucos bombons.

Da minha partida

Onde eu estou? Alguém sabe onde é que eu fui parar? Porque quando sai eu esqueci de me despedir e falar quando voltaria, e por isso estou aqui vazio, estranho, ansioso, esperando não sei o quê... Acho que a falta de trabalho nessa altura da vida me fez muito mal. Eu não canso; eu só sinto sono. E tento com certo esforço me manter lúcido em público, porque na maioria das vezes eu fico distraído procurando alguma coisa que me interesse. Minha inquietação é banal. Não há quem não a tenha experimentado. De repente eu desperto e tento resolver os problemas dos outros acreditando que alguém competente possa se interessar em resolver o meu. Ilusão. Ao meu redor todos mal cuidam de si.

Mas não me importo; logo, logo eu montarei no meu Pegasus e voarei por entre as nuvens lançando minhas moedas de ouro lá do alto para ver os homens se humilhando por essa besteira. Eu apostarei corridas com outros unicórnios nas raias das pautas de Vivaldi, e cantarei o canto das fadas, e roncarei o ronco da onça pintada. Eu zombarei dos homens em suas vaidades e vou gargalhar das conversas com os pandas nos bambuzais –– os pandas são cômicos ––.

Não haverá mais a dor e o sofrer. Eu verei tudo em câmera lenta e alta resolução. Vou me desfazer em uma nuvem de pólen sobre as plantações de papoulas do Afeganistão e conhecer o mundo inteiro por causa da tolice dos homens. E ao final do dia, depois de chorar o fim do mundo tradicional de todo pôr-do-sol, eu acenderei os fogos!

Acordarei os surdos e os cães, espantarei os peixes e as corujas. E quando os holofotes incidirem sobre mim tocarei meu solo de guitarra, hipnotizante e devastador. E quando eu souber que o meu sol não aparecerá na manhã seguinte, pedirei mais holofotes sobre mim até que eu seja como as estrelas, que de tanta luz, mesmo depois de mortas continuam brilhando por anos na mente de outros seres, vivendo minha finita forma de eternidade, do jeito que posso, do jeito que consigo.

Expresso poético

Não me dou mais ao luxo de escrever consciente
Pois se muito espero as palavras todas me fogem da mente.
Por isso não raro percebo
Que belas músicas e poesias geradas foram no meu sossego.

Nem todo mundo nasce pra ser poeta
Mas poesia na vida, todo mundo percebe.
Se há tolos que acham tolice escrever poema
Tolo é quem pensa, vive, sente, e não escreve.

Ainda hei de deixar umas poucas letras
Impressões dessa vida corrida.
Tanto vento, tanto mundo nessa lida.
Eita vontade de que a vida fosse infinita.

Triste vagar sofrido

Infinitamente consumido de dores na alma
Revolvo-me sobre as cinzas de uma alegria
Um dom prometido à eternidade,
Pranteia inconsolável face a sua jornada sombria

Minha boca se dilata encharcada das lágrimas vertidas
Esse luto que deambula em minha estrada
Em me acompanhar me humilha, me mata e me ressuscita

Acreditando em minha pequenez fui surpreendido!
Descobri caber em mim um sofrer infinito
Minh'alma se eleva só quando erguida por ganchos agudos
E toca a pedra quando afligida pela vida num sufocar bruto

Não há compaixão que me alivie desse chorar
Nem um alento sequer que possa me erguer
Cego das muitas batalhas desde a luz da aurora
Naufragado em lágrimas antes do anoitecer.

Das mudanças.

E mais uma vez estou aqui, sentado, pensando no que fazer com o cetro da minha vida. Bem verdade é que ele provavelmente possui menor poder do que suponho, porém ainda é o que há de mais poderoso na minha existência: o livre arbítrio. E agora, como em tantas outras vezes, me percebo procurando o manual de instruções da minha vida. Lamento não ser um bom planejador, e consolo-me em deduzir que os eventos mais agradáveis que já experimentei pouco dependeram de planejamento.

Diante desses novos mares, dessas águas tão belas e revolutas, hipnotizado prefiro olhar para dentro. Admirável Mundo Novo. Despeço-me de meus amigos, de meus pais, de minhas mirradas e confortáveis raízes. Mudo de praia, e vejo meus castelos de areia inconsoláveis ante o mar. Questiono minha força e habilidade para erguer outros. Mas não sigo iludido; sei que habito à beira do mar.

Das divagações

E se eu discordasse da proposta do Universo. Se o motivo de ser não fosse assim tão aparente. Ainda tem muito mistério a ser explicado sobre o que essa brisa fria sobre minha cabeça à noite me faz pensar, e mais ainda, sentir. Eu queria muito que os mistérios fossem verdades. E nesse barco das sensações percebo que devia me tocar mais. Ando esquecendo a proporção do meu corpo e a textura de minhas unhas.

Tenho muitas coisas para fazer e tenho pouco tempo, mas é que me distraíram na vida, e o tempo passou. Mas eu vou retomar tudo. Meu fabuloso projeto de ser jovem ainda precisa de alguns reparos. Vou progredir enquanto houver tempo; enquanto não me distraírem.

Acho que imaginarei mais vezes que a minha mente é poderosa o suficiente para perceber "somente" tudo aquilo que importa. E imaginarei que sou feliz. Nós humanos somos seres fantásticos, não é verdade?

Do movimento.

Uma vida como outra qualquer; insignificante como outra qualquer, inacreditável como outra qualquer. Como podemos nos dar ao luxo de esquecermo-nos ou ignorar esse fato, considerando-a um fenômeno perfeitamente normal e cuja reflexão é rapidamente entediante? Não somos só dores ou vontades, nem números, ou livros ou projetos. Na verdade, nós somos muito mais do que podemos compreender; alheios à plenitude de nossa complexidade, vivendo uma irônica maravilha do Universo. Vivemos de tentar concluir esse inútil projeto da humanidade nesse ruidoso silêncio da Terra no Cosmos.

Sim, tudo é caos. E o caos é naturalmente incompreensível, nos angustiando por não nos dizer o porquê desse tanto movimentar-se. Sabemos imediatamente que existimos para o movimento e por causa do movimento, só que isso per si não faz sentido algum, entretanto, ainda assim continuamos nos movendo, nos movendo, nos movendo...

Da eventualidade de um timbre.

Nunca peçam-me para calar a boca, pois antes de nascer minha voz nunca foi ouvida, e depois que eu morrer nunca mais a poderei emitir a partir desse corpo novamente.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Do paradoxo do tempo

Agora, percorrendo essas estradas, volto a sentir aquela velha dor amarga da vida que passa. Não posso fazer nada diante deste dilema. Entendo que todos nós compartilhamos de destinos semelhantes, mas tanto sofrimento de existir deveria ter um propósito imediato. Seria bom se descobríssemos que somos de fato eternos. Finalmente deixaríamos essa onda passar por nós, e enfrentaríamos novos dilemas, formas diferentes de encarar este Universo tão imenso e vazio.

As lembranças dessa vida passageira se somando a tantas outras vidas que não se somam me causam uma angústia abominável. O desejo de inexistir se soma ao de ser eterno; a única forma que me inconforma é essa breve existência, onde nos vandalizamos em neuroses estafantes. Será bem melhor a vida dos loucos? Perdidos em seus delírios dinâmicos, vivendo aventuras imaginárias, penetrando em lembranças e pensamentos desconexos e, mesmo assim, sem questionar-se sobre a relevância ou coerência dos fatos? Literalmente sonhando (ou tendo pesadelos) acordados. É de uma asfixia, de um desespero enorme esse "despedir-se da vida". E, de repente, já não encontro um consolo que me conforte. Não trabalho corretamente; de que importa? Nem durmo direito. Apenas distraio-me, atento aos que passam, aos que pensam, aos que correm, aos que trabalham, aos que gozam. Percebo-me a buscar uma saída para o meu fabuloso plano de tornar-me imortal. E esta se torna mais uma atividade dentre as tantas outras atividades que nos distraem de sofrermos com nossa morbida certeza futura. Porém ainda não pensei em proeza maior: tornar o mundo imortal. Afinal, qual ser se arriscaria a ficar só diante da eternidade para ver o depois, e depois, e depois das coisas?

E assim percebemos o despropósito desse correr, desse lutar. Resta-nos calar a mente, e viver (morrer) com alguma dignidade, distraindo-nos com coisas corriqueiras ou projetos de uma vida inteira, enquanto nos franzem o rosto, caem-nos os cabelos, matam-nos os amores e desafetos, até que esse fenômeno se complete em nossas vidas de modo tão implacável quanto um sono... talvez nos descansando para um despertar inigualavelmente maior.