Sei apenas do que sinto. E para mim a paixão só é concreta quando estou apaixonado. Quando não estou, é apenas lenda. Mas sei que não há nada de lenda quando meu coração acelera e minha respiração é suspensa. Não é como em meus sonhos de tesouros onde as correntes de ouro se desfazem sobre o meu lençol; em mim a paixão é como um corcel que cavalga brutalmente do onirismo para a realidade, e quando retorno à lucidez e procuro o corcel, só vejo a poeira levantada e o som incerto de possíveis galopadas ao longe. Acabou-se.
A paixão me trancou do lado de dentro. Estou preso aqui dentro de mim junto a meus pensamentos, andando de um lado para o outro, tentando bolar uma fuga do castelo em que meu coração me aprisionou. O plano dele é destruir meu orgulho, e me fazer rastejar atrás da pessoa amada, servi-la, venerá-la. Sinto que tenho até a meia-noite para sair deste castelo, ou ficarei preso nele por um tempo e metade de um tempo.
Contudo, em minha lenda não há herói, pois o mundo quer que eu me apaixone. Meu anti-heroi não virá. E já sinto a gravidade diminuir na minha masmorra. Não confio em meus olhos que agora veem luzes coloridas por toda parte, nem nos meus ouvidos que me fazem sentir uma música que nem está sendo tocada. Estou em um terremoto d'alma. Estou no meio de uma guerra medieval. Estou numa floresta de faunos. Estou correndo com dinossauros. Estou vendo a origem da vida no Universo. Estou em chamas; e que ninguém ouse me apagar.