sexta-feira, 18 de março de 2011

O mausoléu

São desses fragmentos de tristezas, desses pedacinhos de dor, que construímos um mausoléu para o que achamos que foi morte em vida. E é lá que em tom solene nos incendiamos de angústia; lá que levemente flutuamos, como folhas queimadas em uma poça de lágrimas. Outras vezes, é lá que nos deixamos levitar junto à fumaça de nossas cinzas, pois depois de tantas tristezas, ficamos estranhamente leves e frágeis, a ponto de flutuar acima da poça de lágrimas, como se o corpo de sofrimento estivesse queimado e nos tivesse libertado para esse espaço, onde o mal já está irremediavelmente criado, e não precisamos mais implorá-lo que não exista, que não se realize.

E de tantos visitarmos nossa catacumba de tristezas, de colocarmos, dia após dia, outros pedacinhos de dor, nos enclausuramos numa tarefa de decorar esse lugar solitário, de até mesmo amá-lo, porque ele foi quem se sentou ao nosso lado, deixando-nos sofrer, sem dizer que haviam outras coisas mais importantes para fazer, sem nos dizer para ter esperança; sofrendo do mesmo lamento. E logo se torna parte de nós, familiar, inconfundível. Finalmente encontramos nele outro lar, reconhecendo nas escamas das paredes, de quantas dores padecemos. Nosso ninho de tristezas, feito de nossos escombros, escrito com o pouco sangue que nos sobra... com a outra parte de nós, aquela que não ficou junto com a razão da tristeza.

Eu construí meu mausoléu. E, por vezes, retorno a ele, como um fracasso, como uma esperança perdida, como um menino que apanhou na escola. Observo em suas paredes verde ocre os retalhos de fotografias, as reminiscências do muito que me dói. Ando displicentemente por entre folhas secas até meu lago de lágrimas. Minhas lágrimas destiladas em completo anonimato, lamentando juntas a falta de piedade que lhes foi por toda a vida oferecida. Elas são minhas filhinhas. E eu, um triste pai que não pôde trazer-lhas consolo.

Mas meu mausoléu tem janelas, e vejo relva lá fora. A luz de uma manhã fria penetra silenciosa, respeitando a dor do morto. É que eu só vejo vida do lado de fora, por dentro tudo me é natureza morta.