sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Das alegrias sujas

Onde estás tu, brilho dos meus olhos?
Não atentas que sem ti escureço-me por inteiro?
A vagar apalpando paredes em meus atos incertos
Escondido no fundo do meu corpo-cativeiro

O desvanecer de ti levou-me o doce do dia
Por que me deixastes, maldita luminescência?
Largastes em mim lama, limo e lixo
Neste gradil ósseo meu que arde em miséria

O que sobrou de mim não hesita em mutilar-se
Devora-me as unhas, as peles, os dentes e os pelos
Sobrando mágoa, remorso e agonia

Não haverá outra forma de vida nesta morada
Que brilhe como outrora rutilara em meu peito
A alegria serena de um pinto no lixo

segunda-feira, 18 de março de 2013

The gardener

          The enormous weight of everyday life. Between a sip of black coffee and a puff of a cigarrete the reality finds place and opportunity to collapse. With the atmosphere as dense as water, time has stopped. It is not just the domestic indulgences, but this movement and necessities drained my powers. All the harmony has broken and I watch the confusion in a box of mosaics. It is hard to find the pattern. Life must be seen from the outside to show some reason. Even myself seems to fit the strangeness of the chaos. The pressure of time crushing my very little acts.
          My existence is a dark warehouse lightened by the light of my mind. However, my battery is almost dead and there's not much to see now. The potential of this is like a fairy tale on a book of thousands of tales which I am not interested at. And the months rushing in a schedule made for me stretches my ropes regardless of the pain. A common life has its time of glory once in a while, but this time of History, that country, that city are not mine and I am starting to disbelieve in "elsewheres".
          My nature tells me to be still and listen, but who are going to wait for me? The nature of my flesh is as fast as Earth's and I cannot peacefully ask people to await the end of my ice ages. On the continent of my self I cannot predict the stormy and droughts yet. Each hour has a name which I have not named myself. Nonetheless, I am sure this life can be mine once more. Not painted with blue or red, green or black. I love the pastels. I dilute the colors of my life in many sub-tones on the thin-layer chromatography of my perception. And alchemists need time to create, to reveal something hidden. Time that I do not have.
          The threats of a so-called irresponsible life are feared by my beloveds more than by myself. I cannot give you quick answers but I can give you mature answers if you wait. Answers that generate rain in my prairies. I am a gardener, not a farmer. And I'm being convinced to buy seeds and machinery that I don't want for the good of growing of poisoning food to me.

sábado, 6 de outubro de 2012

Da existência após a morte

Quão grande são as tragédias que nos fazem sentir a dor de existir! Sinto claramente que a Terra está parada no Universo, e todo o resto segue movendo-se. E sinto-me parte desse planeta imóvel. Eu e a Terra estamos absolutamente estáticos. Ambos chegamos a exaustão. Não sinto uma só gota de vida em mim, porém não estou morto. Estou tão vivo quanto este planeta solitário, imóvel e perdido na Imensidão.

Vi hoje cenas de maldade humana. E por isso morri. Morri de tristeza ali mesmo, junto com o que vi morrer. Na verdade, sinto meu corpo morto, meus olhos vítreos, minha carne escura e meu peito imóvel. Há um mal que não pode ser contido. Um mal humano que me reduziu à microscopia. A minha consciência vaga microscópica  e irracional dentro deste corpo apagado. Minha humanidade está morta. Meus olhos não acessam o exterior. Neste momento eu só vejo a mesma cena. Vi um animal ter sua pele removida ainda vivo, e ele curvou-se derrotado. Vi os seus cílios lentamente piscarem numa cabeça branca e ensanguentada. E em ver que ele estava vivo morri.

Compartilho essa dor porque não paro de vomitá-la. Perdi a ternura das palavras, porque o medo embotou-me tudo. Minha realidade estilhaçou-se e estou preso aqui dentro. Morre-se de um tiro, de uma gota de gordura num local vital, de átomos venenosos que se ligam a um receptor. E eu debilmente morri de um olhar. Estranhamente ver a vida me fez morrer.

E agora acompanho a Terra, que aguarda o fim da vida para ter paz. Pois como o amor nos garante a tristeza do seu certo fim, a beleza milagrosa da vida garante a tristeza ao lembrar sua fragilidade. A melancolia do orvalho matinal. Somos uma monstruosidade que escorre sobre a Terra. E não há nada que atenue o horror que ocorreu aqui.

A vida foi um fracasso.

sábado, 19 de maio de 2012

O estrangeiro ou o pessimismo

Meus inimigos se alimentaram de minhas escamas. Eles me envelheceram e se fartaram da minha carne. Eu angariei inimigos que se escondem de mim; inimigos presentes na casa vazia, presentes no medo da morte, inimigos que me espreitam no ouvir de canções tristes. De quantas vitórias eles precisarão até perceberem que me venceram?

Estou como a gazela que lamenta o fim nos dentes do grande felino. Como a presa que se entrega à morte, mas esta não vem. Meus inimigos são filhotes sedentos por minha agonia. Eu não os vejo, não os cheiro, mas os ouço. Sua alegria é sentida ecoando num canto escuro de minh'alma. Há muito eu já me despedi de um mundo que não acabou. Eu já sei de todas as coisas que se precisa saber. Eu tenho em minha memória as lembranças de todas essas vidas que vivi. Eu vejo além de minha existência, e lamento muito. As coisas não ocorreram como deveriam.

Vejo um pôr-do-sol numa floresta estranha. Não há nenhuma beleza. Na verdade só há medo e uma estranha forma de sofrimento. Eu sinto décadas sobrepostas, de maneira que o tempo é indefinível. É um tempo de muita confusão e fragilidade. Sou a frágil alma de uma criança fluindo nessa floresta. Sou frágil a ponto de crer que me desfarei ao mais curto grito. Eu só quero existir, mas o tecido dessa vida é muito violento e até o vento me parte o coração. Meus algozes hão de consumir-me. Mais um solavanco e minhas cinzas voarão pelo ar, confusas nos redemoinhos, enquanto sobem sem saber porque odiaram-me tanto, desde que me conheceram. Eu nunca intentei despertar vossa ira.

O mundo pertence aos meus inimigos. Sou um intruso, porém não tenho um mundo meu. Eu só possuo a distância que vai de minha essência até minha pele. Eles me ferem com tanta frequência que quase me convencem a concordar com meu aniquilamento. Sou uma alma de escravo. Satisfaço-me em servir. Alegro-me em agradar. Entretanto nessa dimensão da existência as maldades me envenenam muito, e os maus são muitos. De onde eu venho as lágrimas são evitadas como os abortos, pois vemos numa lágrima vertida uma dor que não torna atrás.

Lembre-se de mim, mundo mau. Eu fui esperança todos os dias combatida, e para vós dor todos os dias inflamada. E nunca entendi vossa estranheza. Sempre disseram-me que eu era humano como vocês, mas não era verdade; eu nunca serei. Todos dias que estive com vocês eu sofri sozinho sem saber o que era.

sábado, 21 de abril de 2012

Dos desperdícios

Ouçam o som das coisas vivas se amontoando. Infinitas coisas sendo desperdiçadas. Nesse sistema tudo que é vida foi feito para ser subutilizado; as belezas duram o tempo de uma flor. Viemos ao mundo com mais arcos do que flechas e nem mesmo nos ensinaram a atirar. Somos feitos de um grande desperdício. Desperdício de células germinativas, de temperatura, de nutrientes, de tempo, de possibilidades. Afinal, quando escolhemos um caminho desperdiçamos todas as outras possibilidades.

Veja a chuva caindo. Quanto nos é custoso o cair de uma gota de suor! O quanto não é sofrido à folha matinal o despedir-se de seu orvalho? Nos entregamos em muitos sacrifícios inglórios. A chuva que cai não nos compensa o esforço. Observo rostos ondulados em curvas deleitosas e imagino um mundo de possibilidades. Sinto cheiros que me remetem a mais lembranças do que posso processar.

A vida está sendo desperdiçada por toda parte; em todo o tempo registrável. Dizem que os átomos abrigam uma energia indecente, e ainda assim podem ser destruídos ao sabor de um pensamento. O pensamento desconhece o mal que faz. Neste tão grande sistema de desperdícios só a vida lamenta, ou somente ela se apercebe que lamenta. Talvez as montanhas lamentem o transformar-se em planícies. Talvez o rio lamente chegar ao mar.

Quantos ecos no universo. Ecos que anunciam possibilidades perdidas. Esse é o som de tudo o que poderia ter sido e nunca vai ser. Um número está certo na loteria, e sessenta milhões de outros números estão errados. Alguém encontra um tesouro num olhar alheio, e milhões de outros só encontram a solidão. Olhem quantas coisas encaixáveis seguem a minha vida e percepção inteira sem se encaixar. É uma afronta à lógica!

Pode ser que a dor seja a medida do bom uso. O antidesperdício.

quinta-feira, 1 de março de 2012

After laughter

Mais um pouco de tempo e tudo vai passar: essas dores, esses amores, esses terrores. Pois quando acaba a energia tudo retorna à antiga tristeza. Porque a tristeza parece ser o fim de toda viagem. Lá estamos nós, as roupas sujas, as lembranças, as fotos, e um quê de tristeza. Parece que a tristeza é minha única amiga, pois é a única que fica quando todos vão embora. Às vezes é ela quem nos faz chorar e por toda aquela tensão para fora, e quem nos faz sentir a arte a ponto da vida real se mostrar menor.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Das Economias Domésticas

Não posso vos dar-me. Sou muito escasso, estou certo que sou. Escorro-me um pouco cada dia. Sei que me queres; todos me querem, mas a maioria me desperdiça.
Precisam de meus sorrisos, ainda que insossos; de minhas palavras, ainda que óbvias; de meu amor, ainda que teórico. E outros exigem minha presença ainda que seja reciprocamente indesejada.
Também quero muito a mim. Vivo pedindo-me, mas além de ser quem de mim mais tem, sou também quem de mim mais desperdiça. São tantos vícios, tantos medos, tanto sono que suspeito de que falto aos outros porque disponho muito de mim para mim mesmo.
Quem haveria de ensinar-me a usar-me com moderação?
Entretenho-me com inúmeras tonterias, como se possuísse a eternidade por futuro. Desgasto-me com preocupações como o injusto preço da passagem de ônibus ou com a legalização da eutanásia. Passo dias em casa a observar nuvens e luzes que deslizam pelas janelas, a esboçar livros que nunca serão escritos. Não consigo me negar a mim. Dou-me o quanto eu me pedir, pois parte de mim reclama nostalgicamente o quanto que me ausentei de ser eu mesmo, de modo que esta parte exige este não ter sido para ser o que quer que seja, mesmo que seja ócio.