Onde eu estou? Alguém sabe onde é que eu fui parar? Porque quando sai eu esqueci de me despedir e falar quando voltaria, e por isso estou aqui vazio, estranho, ansioso, esperando não sei o quê... Acho que a falta de trabalho nessa altura da vida me fez muito mal. Eu não canso; eu só sinto sono. E tento com certo esforço me manter lúcido em público, porque na maioria das vezes eu fico distraído procurando alguma coisa que me interesse. Minha inquietação é banal. Não há quem não a tenha experimentado. De repente eu desperto e tento resolver os problemas dos outros acreditando que alguém competente possa se interessar em resolver o meu. Ilusão. Ao meu redor todos mal cuidam de si.
Mas não me importo; logo, logo eu montarei no meu Pegasus e voarei por entre as nuvens lançando minhas moedas de ouro lá do alto para ver os homens se humilhando por essa besteira. Eu apostarei corridas com outros unicórnios nas raias das pautas de Vivaldi, e cantarei o canto das fadas, e roncarei o ronco da onça pintada. Eu zombarei dos homens em suas vaidades e vou gargalhar das conversas com os pandas nos bambuzais –– os pandas são cômicos ––.
Não haverá mais a dor e o sofrer. Eu verei tudo em câmera lenta e alta resolução. Vou me desfazer em uma nuvem de pólen sobre as plantações de papoulas do Afeganistão e conhecer o mundo inteiro por causa da tolice dos homens. E ao final do dia, depois de chorar o fim do mundo tradicional de todo pôr-do-sol, eu acenderei os fogos!
Acordarei os surdos e os cães, espantarei os peixes e as corujas. E quando os holofotes incidirem sobre mim tocarei meu solo de guitarra, hipnotizante e devastador. E quando eu souber que o meu sol não aparecerá na manhã seguinte, pedirei mais holofotes sobre mim até que eu seja como as estrelas, que de tanta luz, mesmo depois de mortas continuam brilhando por anos na mente de outros seres, vivendo minha finita forma de eternidade, do jeito que posso, do jeito que consigo.
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