Não posso vos dar-me. Sou muito escasso, estou certo que sou. Escorro-me um pouco cada dia. Sei que me queres; todos me querem, mas a maioria me desperdiça.
Precisam de meus sorrisos, ainda que insossos; de minhas palavras, ainda que óbvias; de meu amor, ainda que teórico. E outros exigem minha presença ainda que seja reciprocamente indesejada.
Também quero muito a mim. Vivo pedindo-me, mas além de ser quem de mim mais tem, sou também quem de mim mais desperdiça. São tantos vícios, tantos medos, tanto sono que suspeito de que falto aos outros porque disponho muito de mim para mim mesmo.
Quem haveria de ensinar-me a usar-me com moderação?
Entretenho-me com inúmeras tonterias, como se possuísse a eternidade por futuro. Desgasto-me com preocupações como o injusto preço da passagem de ônibus ou com a legalização da eutanásia. Passo dias em casa a observar nuvens e luzes que deslizam pelas janelas, a esboçar livros que nunca serão escritos. Não consigo me negar a mim. Dou-me o quanto eu me pedir, pois parte de mim reclama nostalgicamente o quanto que me ausentei de ser eu mesmo, de modo que esta parte exige este não ter sido para ser o que quer que seja, mesmo que seja ócio.