Quão grande são as tragédias que nos fazem sentir a dor de existir! Sinto claramente que a Terra está parada no Universo, e todo o resto segue movendo-se. E sinto-me parte desse planeta imóvel. Eu e a Terra estamos absolutamente estáticos. Ambos chegamos a exaustão. Não sinto uma só gota de vida em mim, porém não estou morto. Estou tão vivo quanto este planeta solitário, imóvel e perdido na Imensidão.
Vi hoje cenas de maldade humana. E por isso morri. Morri de tristeza ali mesmo, junto com o que vi morrer. Na verdade, sinto meu corpo morto, meus olhos vítreos, minha carne escura e meu peito imóvel. Há um mal que não pode ser contido. Um mal humano que me reduziu à microscopia. A minha consciência vaga microscópica e irracional dentro deste corpo apagado. Minha humanidade está morta. Meus olhos não acessam o exterior. Neste momento eu só vejo a mesma cena. Vi um animal ter sua pele removida ainda vivo, e ele curvou-se derrotado. Vi os seus cílios lentamente piscarem numa cabeça branca e ensanguentada. E em ver que ele estava vivo morri.
Compartilho essa dor porque não paro de vomitá-la. Perdi a ternura das palavras, porque o medo embotou-me tudo. Minha realidade estilhaçou-se e estou preso aqui dentro. Morre-se de um tiro, de uma gota de gordura num local vital, de átomos venenosos que se ligam a um receptor. E eu debilmente morri de um olhar. Estranhamente ver a vida me fez morrer.
E agora acompanho a Terra, que aguarda o fim da vida para ter paz. Pois como o amor nos garante a tristeza do seu certo fim, a beleza milagrosa da vida garante a tristeza ao lembrar sua fragilidade. A melancolia do orvalho matinal. Somos uma monstruosidade que escorre sobre a Terra. E não há nada que atenue o horror que ocorreu aqui.
A vida foi um fracasso.
Nenhum comentário:
Postar um comentário